Residência, Paraty, RJ

3 01 2013

kogan-casa-volumes

Duas caixas de concreto em balanço e isoladas, incrustadas na encosta. Essa é a descrição, em linhas gerais, da proposta de Marcio Kogan para a casa de veraneio em uma praia particular, em Paraty, litoral fluminense. kogan-casa-caixasNo volume mais próximo do mar ficam o estar e os serviços; no outro estão os dormitórios. A casa se insere na trajetória desse arquiteto paulista, com seu universo ortogonal: independentemente do programa, os projetos resultam em caixas.

Essas poucas palavras simplificam ao extremo a obra de Marcio Kogan, que, lapidando suas caixas, revela uma linguagem em franca evolução. O arquiteto iniciou sua carreira apoiando-se, sobretudo, no universo arquitetônico de seu professor Aurelio Martinez Flores, cujo trabalho é marcado pelas caixas de alvenaria branca e massa raspada, pelo apuro no detalhamento minimalista e pelos espaços internos baseados em percursos e surpresas. Outra das muitas influências está no uso de generosas aberturas horizontais, que Flores eternizou no Instituto Moreira Salles em Poços de Caldas, MG.kogan-casa-piscinas

Os primeiros projetos de Kogan a ganhar destaque, ainda no final da década de 1980, reverberavam tudo isso. Um exemplo é a Casa Goldfarb, no Jardim América, em São Paulo, parceria com Isay Weinfeld. Pouca coisa nesse projeto se diferencia das criações de Flores – talvez o volume livre em balanço e com textura diferenciada, e as aberturas circulares, que marcaram a obra de Kogan e Weinfeld por quase uma década. Essa mesma linguagem persistiu na trajetória de Kogan até parte dos anos 1990 – vejam-se a Casa Raw e a loja Larmod, com acesso semelhante ao utilizado por Flores na casa paulista de Zaragoza, 15 anos mais velha.

Há pouco mais de dez anos, sem abandonar as caixas, a obra de Kogan entrou em franca evolução. O primeiro passo foi trabalhar as texturas dos kogan-casa-fechamentosrevestimentos que envelopam seus volumes. Assim surgem, por exemplo, as caixas de tijolos, como o Hotel Fasano, com Weinfeld, e a Casa de Tijolinho. Esse material também fazia parte do repertório de Flores, utilizado no projeto do restaurante Gero. Mas Kogan enriquece a palheta: caixas de chapas de aço, como a Casa Corten; de pedras, como a Casa do Quinta, em Bragança Paulista, SP, e a Casa Du Plessis, no condomínio Laranjeiras, também em Paraty; ou de concreto (na loja Micasa Volume B, por exemplo). Para desespero dos críticos, o uso de materiais está perdendo o caráter puramente cenográfico. Tal como nos célebres exemplares da escola paulista, a recente casa em Paraty é inteiramente de concreto. Sem esquecer sua própria trajetória, Kogan tira partido da textura e do volume, com resultado interessante.

O segundo passo se relaciona à volumetria das caixas, que pouco a pouco ganham pureza geométrica, com leitura mais direta. Em lotes urbanos, por exemplo, Kogan passa a adotar o partido da sobreposição de blocos implantados transversalmente para ackogan-casa-balancoomodar os extensos programas. Isso ocorre, por exemplo, na Casa Panamá e na Casa das Mirindibas, ambas em São Paulo. E a residência em Paraty torna-se emblemática: as duas caixas estão isoladas e sua visualização é muito clara.

 

O terceiro ponto na evolução do trabalho de Kogan são as aberturas que se sofisticam, deixando os óculos para trás. Seguindo a linha de rasgos horizontais, Kogan pulou das aberturas à la Flores para as janelas corbusierianas em fita, que rompem os volumes com força, tal como no piso superior da Casa Pacaembu. A casa em Paraty, mais uma vez, entra como prova da maturidade: tal como na Casa Osler, em Brasília (que também tem a arquiteta Suzana Glogowski como coautora), as caixas na ilha fluminense perdem um dos fechamentos laterais – o que está voltado para o mar – e as aberturas transformam-sekogan-casa-estar no vão do volume, o que intensifica a relação interior/exterior. Na caixa mais alta, a vedação dos dormitórios é feita com ripas irregulares de eucalipto, colocando em cena, mais uma vez, a habilidade do projetista com o uso dos materiais. Também semelhante à Osler, a espessura chanfrada busca a leveza.

Por fim, acrescente-se à trajetória da arquitetura de Kogan o caráter tectônico que, com vagar, os volumes vão ganhando, com estrutura mais clara e realista – que, de certa forma, também o aproxima dos colegas paulistas. Por isso parece irônico que, como conta Kogan, “nenhum profissional paulista consultado quis calcular a estrutura” da casa em Paraty, com balanço de oito metrokogan-casa-caixilhoss em volume de 27 metros.

Claro que algo da lógica de Flores permanece: como na maior parte dos projetos de Kogan, em Paraty percursos e circulações recebem tratamento especial. Neste caso, o acesso é realizado pela praia. Depois disso, para adentrar o volume passa-se por uma passarela sobre um espelho d’água. O detalhamento preciso, seja nos caixilhos, seja no arranjo dos interiores, ganha a companhia de uma coleção de mobiliário moderno, com peças de George Nakashima, Luis Barragán, Lina Bo Bardi, Sergio Rodrigueskogan-casa-caixa-vidro, Joaquim Tenreiro e Zanine Caldas, entre outros.

Esse percurso do trabalho de Kogan pode ser creditado a quatro fatores. Em primeiro lugar, e mais importante, está a maturidade profissional. Em seguida vêm o constante mergulho na cena contemporânea internacional, o trabalho em equipe – com a participação efetiva de colaboradores na criação – e a demanda de clientes exigentes. Como a trajetória de Kogan continua em processo, há em sua prancheta projetos em que a caixa deixou de ser protagonista. O que vem por aí? Parece que são curvas…

kogan-casa-patio

Texto de Fernando Serapião

 

Equipe CT Projetistas.

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